
Aqueles que vieram para lutar pela Vida
Quantas vezes os que lutam não se sentem indignados e desanimados pela solidão da batalha pela justiça, frente à imensidão das injustiças? Quantas vezes sua esperança e coragem não fraquejaram perante o aparente isolamento de tão poucos grupos ou indivíduos na marcha por uma Humanidade de Amor? Sempre esperam que se juntem à luta todos os homens, todas as almas, todos os braços unidos para a construção deste mundo de paz e justiça amorosa, mas, será que todos estão destinados à lutar?
Alguns, naturalmente corajosos e questionadores, lançam-se no do desconhecido da batalha, outros, tímidos e cautelosos, prefere assistir a realidade acontecer, mero expectador. Coragem se ensina? Impetuosidade se ensina? Podemos mostrar àqueles que nunca sentiram dentro de si a chama da luta, como acendê-la?
Talvez sim, talvez não. Uma coisa é certa, não podemos forçar um homem a lutar. Ele não poderá andar neste novo mundo de amor, se não acreditar nisso. O que se pode fazer é mostrar o caminho, e quem quiser, seguirá, ou não. O que podemos é incendiarmos nossos corações de indignação e ímpeto transformador, lutador, fraterno, e deixar que o vento leve essa centelha a outros corações. Podemos ser fonte, mas não podemos nem devemos ser imposições. Impor seria trair nossa própria causa de sermos fraternos, livres e justos.
Alguns nascem para lutar pela vida existente por sua preservação, outros para repor a perdida. Para que nasceste? O que sentes inflamar dentro de si?
Mas também existe a constante força contrária a qualquer transformação, mudança, questionamento, distribuição igualitária da vida. Esta força tem todo o interesse e intenção de apagar, coagir, coibir e oprimir as chamas da renovação, da mudança, da revolução, e nisso, os corações são educados para a acomodação, e algumas das chamas se rendem às cinzas. Essas chamas, sim, precisam ser atraídas para a verdadeira razão de ser e de viver, e as pessoas destinadas à manutenção da existência, à reprodução, também podem e devem estar juntos aos lutadores na consciência de justiça, paz e amor, para estarem sendo força de manutenção desta realidade ‘nova’.
“O Deserto é fértil”. Se a luta parece infrutífera, se nossas ações e sacrifícios não nos permitem ver os infinitos resultados, não havemos de desistir. Pois este deserto de caos, sangue e injustiças em que nos encontramos, onde o amor só com grandes dificuldades floresce em meio à aridez do egoísmo e individualismo geral, é justamente a nossa matéria-prima, a realidade que devemos transformar, que se fertiliza com o sangue de nosso sacrifício, com o suor de nossa caminhada, com a luz de nossas vidas, nossos espíritos.
“Importante é a firme decisão interior de responder ao máximo, e de servir.”
- Dom Hélder Câmara - O Deserto é Fértil